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Parto em Casa: eis as evidências científicas!

  • Deia
  • 12 de fev. de 2016
  • 6 min de leitura

Aqui vai um texto escrito pela Médica Obstétra (que eu sou grande fã) Dra. Melania Amorim, apresentado a mim pela Tete, uma das gurias que fez o curso de doula comigo <3 O texto trata das evidências científicas sobre o parto doméstico em relação ao parto hospitalar! E é um arraso! Suuuuper recomendo ^^

"Li com atenção a interessante matéria do Guia do Bebê sobre Parto em Casa. [http://guiadobebe.uol.com.br/parto-em-casa/]

Entretanto, mesmo bem preparada, a matéria peca por apresentar apenas o ponto de vista de uma única obstetra, sem considerar a visão de diversos outros profissionais que podem participar da assistência ao parto e, sobretudo, sem analisar a opinião das mulheres.

Como obstetra, pesquisadora e integrante do Movimento de Humanização do Parto no Brasil, não poderia deixar de contrapor a este ponto de vista, digamos, “oficial”, por refletir a opinião de grande parte dos médicos-obstetras em nosso País, considerações baseadas não em “achismos” ou receios, mas em evidências científicas.

O parto em casa, conquanto seja uma modalidade ainda pouco frequente no Brasil, representa uma realidade dentro do modelo obstétrico de diversos outros países, como a Holanda, onde 40% dos partos são assistidos em domicílio, dentro do Sistema de Saúde. Mas vários outros países europeus e até os EUA contam com estatísticas confiáveis pertinentes aos partos atendidos em casa, e é impossível falar em RISCOS ou SEGURANÇA sem considerar os resultados dos diversos estudos já publicados sobre o tema.

Em 2005, chamou a atenção a publicação de um interessante estudo analisando os desfechos de partos domiciliares assistidos por parteiras na América do Norte: "Outcomes of planned home births with certified professional midwives: large prospective study in North America"[http://bmj.bmjjournals.com/cgi/content/full/330/7505/1416?ehom]. O estudo incluiu 5418 mulheres. A taxa de transferência para hospital foi de 12%, com uma taxa de cesariana de 8, 3% em primíparas e 1,6% em multíparas.

A frequência de intervenções foi muito baixa, correspondendo a 4,7% de analgesia peridural, 2,1% de episiotomias, 1% de fórceps, 0,6% de vácuo-extrações e uma taxa global de 3,7% de cesarianas. A taxa de mortalidade perinatal (intraparto e neonatal) foi de 1,7 por 1.000, semelhante à observada em partos de baixo risco atendidos em ambiente hospitalar. Não houve mortes maternas. O grau de satisfação foi elevado (97% das mães avaliadas se declararam muito satisfeitas). A conclusão deste estudo foi que os partos domiciliares assistidos por parteiras têm os mesmos resultados perinatais que os partos hospitalares de baixo risco, com uma frequência bem mais baixa de intervenções médicas. Entretanto, alguns críticos comentaram que o número de casos envolvidos seria insuficiente para determinar a segurança do parto domiciliar em termos de mortalidade materna e perinatal.

Seguiram-se vários outros estudos, publicados em diversas regiões do mundo, comparando a morbidade e a mortalidade tanto materna como perinatal entre partos domiciliares e hospitalares. A conclusão geral é que o parto domiciliar NÃO envolve mais riscos para mães e seus bebês, e cursa com vantagens diversas, relacionadas sobretudo à expressiva redução de intervenções e procedimentos. Partos assistidos em casa têm menor risco de episiotomia, de analgesia de parto, de uso de fórceps ou vácuo-extrator, de indicação de cesárea e a taxa de transferência hospitalar fica em torno de 12%. Destaca-se ainda o conforto e a satisfação das usuárias, que vivenciam uma experiência única e transformadora em seu próprio lar.

O estudo mais recente publicado no British Journal of Obstetrics and Gynecology (2009) analisou a morbimortalidade perinatal em uma impressionante coorte de 529.688 partos domiciliares ou hospitalares planejados em gestantes de baixo-risco: Perinatal mortality and morbidity in a nationwide cohort of 529,688 low-risk planned home and hospital births. [http://www3.interscience.wiley.com/journal/122323202/abstract?CRETRY=1&SRETRY=0]. Nesse estudo, mais de 300.000 mulheres planejaram dar à luz em casa enquanto pouco mais de 160.000 tinham a intenção de dar à luz em hospital. Não houve diferenças significativas entre partos domiciliares e hospitalares planejados em relação ao risco de morte intrapa rto (0,69% VS. 1,37%), morte neonatal precoce (0,78% vs. 1,27% e admissão em unidade de cuidados intensivos (0,86% VS. 1,16%). O estudo conclui que um parto domiciliar planejado não aumenta os riscos de mortalidade perinatal e morbidade perinatal grave entre mulheres de baixo-risco, dese que o sistema de saúde facilite esta opção através da disponibilidade de parteiras treinadas e um bom sistema de referência e transporte.

Parteiras treinadas ou midwives, em diversos países, são aquelas profissionais que cursam em nível superior o curso de Obstetrícia e são treinadas para atender partos de baixo-risco e, ao mesmo tempo, desenvolvem habilidades específicas para identificar os casos de alto-risco, providenciar suporte básico de vida em emergências, tratar potenciais complicações e referenciar ao hospital, quando necessário. Essas profissionais estão aptas para prestar o atendimento à mãe durante todo o parto, bem como para assistir o bebê imediatamente após o nascimento e nas primeiras 24 horas de vida. Embora não haja necessidade de equipamentos sofisticados ou de UTI à porta da casa da parturiente, o material básico de reanimação neonatal é providenciado pelas parteiras certificadas. Parteiras também podem atender em hospital, de forma independente ou associadas com médicos.

Uma revisão sistemática recente encontra-se disponível na Biblioteca Cochrane com o título de “Midwife-led versus other models of care for childbearing women” [http://www.cochrane.org/reviews/en/ab004667.html]. Esta revisão demonstra que um modelo de cuidado com parteiras associa-se com vários benefícios para mães e bebês, sem efeitos adversos identificáveis. Os principais benefícios são redução de analgesia de parto, menor número de episiotomias e partos instrumentais, maior chance de a mulher ser atendida durante o parto por uma parteira já conhecida, maior sensação de manter o controle durante o trabalho de parto, maior chance de ter um parto vaginal espontâneo e de iniciar o aleitamento materno. A revisão conclui que se deveria oferecer à maioria das mulheres (gestantes de baixo-risco) a opção de ter gravidez e parto assistidos por parteiras.

Em resumo, as evidências científicas disponíveis corroboram a segurança e os efeitos benéficos do parto domiciliar. Apenas criticar e apontar possíveis complicações, sem comprovar as críticas com evidências bem documentadas, publicadas em revistas de forte impacto, não pode ser mais aceito em um momento da história em que os cuidados de saúde devem se respaldar não apenas na opinião do profissional mas, ao contrário, devem se embasar em evidências científicas sólidas. Este é o preceito básico do que se convencionou chamar de “Saúde Baseada em Evidências”, correspondendo à integração da experiência clínica individual com as melhores evidências correntemente disponíveis e com as características e expectativas dos pacientes”. Embora iniciado na Medicina ('Medicina Baseada em Evidências') esse novo paradigma estende-se a todas as áreas e sub-áreas da Saúde."

Dra. Melania Maria Ramos de Amorim

MD, PhD

Melania Amorim possui graduação em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (1989), residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pelo IMIP (1992), mestrado em Saúde Materno Infantil pelo Instituto Materno Infantil de Pernambuco (1995) e doutorado em Tocoginecologia pela Universidade Estadual de Campinas (1998). Pós-doutorado concluído em 2009, também pela Universidade Estadual de Campinas. Pós-doutorado na Organização Mundial de Saúde (OMS) em Genebra (2010). Tem Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia (TEGO) por concurso (1992). Atualmente é professora adjunta doutora da Universidade Federal de Campina Grande (PB) e professora da pós-graduação (mestrado e doutorado) do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP - Recife/PE). Ensina Ginecologia e Obstetrícia na graduação, é coordenadora do Internato Médico de Ginecologia e ministra as disciplinas "Elaboração de Projetos de Pesquisa", "Informática Aplicada à Saúde", "Epi-Info: Curso Avançado" e "Saúde Baseada em Evidências" na pós-graduação. Atua como consultora técnico-científica em Saúde Materno-Infantil no Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (ISEA) em Campina Grande - PB, onde coordena a Unidade de Gravidez de Alto-Risco. Também é Coordenadora do Comitê Municipal de Morte Materna de Campina Grande. Coordenadora do Núcleo de Parteria Urbana (NuPar) da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento (ReHuNa) no Brasil. Tem 36 orientações de mestrado e oito orientações de doutorado concluídas. Orienta atualmente quatro dissertações de mestrado e 10 de doutorado. Orientou 32 alunos de Iniciação Científica e tem mais quatro orientações em curso. Participou de diversas bancas de mestrado e concursos para professor universitário. Faz parte dos Comitês Especializados da FEBRASGO (Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia) de "Medicina Baseada em Evidências" e "Gestação de Alto-Risco". Também é membro da REHUNA (Rede de Humanização do Nascimento) no Brasil e Presidente de Honra do IPESQ (Instituto Paraibano de Pesquisa Prof. Joaquim Amorim Neto). Atua na área de Saúde Materno-Infantil, com ênfase em suas linhas de pesquisa: Medicina Baseada em Evidências, Humanização do Parto e Nascimento, Hipertensão e Gravidez, Gestação de Alto-Risco, Medicina Fetal, Mortalidade Materna e Cirurgia Ginecológica. Atuou como plantonista e preceptora da Residência Médica do IMIP entre 1992 e 2007, nos últimos cinco anos concentrando-se na área de Terapia Intensiva em Obstetrícia. Participa de três grupos de pesquisa cadastrados no CNPq, coordenando o "Grupo de Estudos em Saúde da Mulher" (UFCG). Tem 161 publicações completas e 10 artigos aceitos para publicação em periódicos nacionais e internacionais, além de diversos trabalhos apresentados em congressos. É autora de seis livros e 24 capítulos de livros. Faz parte do corpo de revisores da Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO) e da FEMINA, além de atuar como parecerista ad hoc de várias revistas internacionais. Desde 2009 é pesquisadora associada do Grupo de Gravidez e Nascimento da Biblioteca Cochrane.

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